Cidades

Tribuna completa 19 anos e celebra seu protagonismo na história de Alagoas

Responsável pelo jornal impresso, Jorgraf consolidou modelo cooperativista sendo referência na comunicação

Por Ana Paula Omena e Lucas França - repórteres / Tribuna Independente 10/07/2026 10h06 - Atualizado em 10/07/2026 13h32
Tribuna completa 19 anos e celebra seu protagonismo na história de Alagoas
Cooperativa que salvou um jornal, a Tribuna Independente chega aos 19 anos como caso único no país - Foto: Arquivo

Sem salário, sem garantia trabalhista e diante do fechamento iminente do jornal onde trabalhavam, jornalistas, gráficos e funcionários administrativos decidiram não abandonar a redação. Em vez do fim, escolheram recomeçar. Quase duas décadas depois, a cooperativa criada daquele colapso completa 19 anos nesta sexta-feira (10), como um dos casos mais incomuns do cooperativismo brasileiro: uma empresa de comunicação comandada por seus próprios trabalhadores.

A Cooperativa de Jornalistas e Gráficos de Alagoas (Jorgraf) celebra uma trajetória construída pela união de trabalhadores que decidiram transformar uma das maiores crises da imprensa alagoana em um projeto coletivo de comunicação. O que começou como uma resposta ao fechamento da antiga Tribuna de Alagoas tornou-se uma experiência consolidada de cooperativismo, responsável por manter a Tribuna Independente em circulação, preservar postos de trabalho e ampliar sua atuação para o ambiente digital.

Este caderno especial resgata os principais momentos dessa história. Das assembleias realizadas em meio à incerteza; das primeiras edições produzidas com os últimos insumos disponíveis à consolidação de um grupo de comunicação multiplataforma; das disputas judiciais para preservar equipamentos e patrimônio ao reconhecimento de um modelo de gestão construído pelos próprios trabalhadores.

Ao longo destas páginas, cooperados que participaram da fundação da Jorgraf relatam os desafios enfrentados para manter vivo um veículo de comunicação independente em um mercado marcado por profundas transformações tecnológicas e econômicas. Mais do que recordar fatos, este especial mostra como cooperação, compromisso com o jornalismo e capacidade de reinventar caminhos permitiram que um sonho coletivo se transformasse em um patrimônio da comunicação de Alagoas.

A história da Jorgraf começou a ser construída com a atuação de sua primeira diretoria, responsável por conduzir os passos iniciais da cooperativa e enfrentar os desafios da implantação do empreendimento.

A gestão inaugural foi formada por Antônio Pereira, presidente; Olívia de Cássia Cerqueira, secretária; José Paulo Gabriel, diretor administrativo-financeiro; e pelos vogais Ricardo Castro, Alexandre Moreira e Carivaldo Nascimento. Coube a esse grupo estruturar o funcionamento da cooperativa, mobilizar os cooperados e dar início ao projeto.

O atual presidente da Jorgraf, José Paulo Gabriel relembra a mobilização dos trabalhadores, a luta para preservar a estrutura da empresa e os desafios que transformaram um movimento de trabalhadores em um dos principais projetos cooperativistas da comunicação brasileira.

“O que começou como uma greve para cobrar salários atrasados acabou se transformando em um dos mais longevos projetos cooperativistas da comunicação em Alagoas.

Sem capital, sem financiamentos bancários e enfrentando disputas judiciais e resistência do mercado, jornalistas e gráficos decidiram assumir o controle da produção do jornal e criar a Cooperativa de Jornalistas e Gráficos de Alagoas, responsável pela Tribuna Independente”, destaca José Paulo Gabriel.

Trajetória é marcada por conquistas e preservação de empregos

Passados 19 anos, a Tribuna Independente acumula parque gráfico, sede e presença em diversas plataformas de comunicação. Para o presidente da Jorgraf, José Paulo Gabriel, a trajetória foi marcada por resistência coletiva e decisões que garantiram a sobrevivência da empresa.

Segundo ele, a cooperativa nasceu da necessidade de preservar empregos e manter vivo um veículo de comunicação em um momento em que parecia não haver alternativas.
“A paralisação ocorreu após o colapso financeiro da antiga Tribuna de Alagoas. Trabalhadores permaneceram durante meses sem salários e passaram a ser apoiados pelos sindicatos dos jornalistas e dos gráficos, que organizavam mobilizações e até auxílio alimentar para parte dos profissionais”, conta.

Foi durante esse período que surgiu a ideia de criar uma cooperativa. Paulo Gabriel frisa que a proposta foi apresentada durante uma entrevista em uma emissora de rádio por Marcos Guimarães. A sugestão acabou sendo levada aos trabalhadores, que aprovaram a criação do novo modelo de gestão.

Durante a ocupação, passaram a produzir edições semanais distribuídas gratuitamente em manifestações e nos principais cruzamentos de Maceió, além de criarem um blog para informar a sociedade sobre o movimento.

O repórter-fotográfico Sandro Lima, um dos participantes da mobilização, lembra que a sobrevivência da equipe dependia da união. “Estávamos há meses sem receber salários. Ocupamos a empresa, vendemos uma máquina para iniciar a produção e cada um fazia um pouco de tudo. Eu fotografava, ajudava na produção e ainda entregava os jornais. Depois de pagar as despesas, sobravam cerca de R$ 200 para cada cooperado. Hoje vemos o quanto avançamos.”